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Botnet de 31,4 Tbps: como TVs baratas viraram arma de DDoS

A botnet Aisuru bateu o recorde de DDoS com 2 milhões de aparelhos domésticos. A Anatel achou 1,8 milhão de infectados no Brasil. Quem paga essa conta?

Gabriel Pedroso9 min de leitura
botnet de dispositivos IoT domésticos

Em 19 de dezembro de 2025, começou uma campanha de ataques que a Cloudflare batizou de "The Night Before Christmas". No pico, ela entregou 31,4 terabits por segundo — o maior DDoS já reportado publicamente. Durou 35 segundos.

O detalhe que devia incomodar mais gente não é o número. É a origem. Essa quantidade absurda de tráfego não veio de data centers comprometidos nem de servidores potentes. Veio de mais de 2 milhões de aparelhos domésticos — em boa parte TV boxes Android de marca genérica, aquelas caixinhas baratas que ficam ligadas 24 horas por dia atrás da televisão da sala.

A tese em uma frase: o problema não é o criminoso que aluga a botnet — é um mercado que vende aparelho conectado sem nenhuma obrigação de mantê-lo seguro, e que empurra o custo dessa escolha para terceiros que nunca compraram nada.

1Fábricao aparelho sai com malware embarcado ou firmware sem atualização
2Casaliga na tomada, entra no Wi-Fi e nunca mais é tocado
3Recrutamentoentra na botnet sem nenhum sinal visível para o dono
4Aluguela capacidade é vendida por hora — DDoS ou proxy residencial
5Usoo crime sai do seu IP, e a conta de reputação é sua
O ciclo econômico de uma botnet de IoT. Repare que o dono do aparelho não participa de nenhuma etapa — e é o único que não ganha nada.

De onde veio a botnet Aisuru

A botnet foi identificada pela primeira vez em agosto de 2024 e cresceu de forma que vale a pena destrinchar, porque cada etapa expõe uma falha estrutural diferente.

Ela chegou a cerca de 700 mil dispositivos IoT — roteadores mal protegidos e câmeras de segurança — antes de dar dois saltos.

O primeiro salto foi a cadeia de suprimentos. Pesquisadores apontam o comprometimento da infraestrutura de distribuição de firmware como acelerador do recrutamento, incluindo uma suposta invasão ao servidor de firmware de um fabricante em abril de 2025. Ou seja: o aparelho não foi infectado depois de instalado — ele baixou o malware da atualização oficial. Nenhuma orientação de "mantenha o firmware atualizado" protege contra isso.

O segundo salto foi a herança. Quando uma botnet rival foi derrubada em agosto de 2025, os dispositivos infectados abandonados não foram limpos — foram absorvidos. Derrubar a infraestrutura de comando não cura os aparelhos: só os deixa disponíveis para o próximo operador.

E então veio a virada de modelo de negócio, que é a parte mais interessante.

O DDoS virou o negócio menos lucrativo

Em outubro de 2025, Brian Krebs reportou que a Aisuru havia sido reformulada para um negócio mais discreto, mais lucrativo e mais sustentável: alugar os dispositivos infectados para serviços de proxy residencial, que ajudam criminosos a anonimizar o próprio tráfego.

Faz sentido econômico frio. Um ataque DDoS recorde atrai a imprensa, mobiliza provedores e acelera derrubadas — é barulhento e queima o ativo. Já um proxy residencial rende dinheiro todo mês, em silêncio, e o dono do aparelho nunca percebe.

Isso muda o que a botnet significa para você. Enquanto ela era só DDoS, o seu aparelho infectado era um problema de outra pessoa. Como proxy residencial, o crime de outra pessoa sai do seu IP: fraude bancária, criação de conta falsa, raspagem de dados, tentativa de invasão. E a reputação queimada é do seu endereço.

A botnet Kimwolf, do mesmo ecossistema, levou isso ao extremo: mirou software de proxy residencial instalado de fábrica em mais de mil modelos de aparelhos Android de streaming não autorizados. Não é infecção — é o produto.

O Brasil está no centro dessa história

Aqui a discussão deixa de ser internacional. A própria Anatel emitiu alerta oficial sobre o malware BadBox 2.0 e identificou mais de 1,8 milhão de dispositivos infectados no Brasil.

O que a agência descreve é pior do que "aparelho vulnerável":

  • Alguns modelos saem de fábrica com malware instalado, operando em segundo plano sem o usuário perceber.
  • O Android desses aparelhos não tem mecanismos básicos de segurança, e as lojas de aplicativos que eles usam não seguem política nenhuma de controle.
  • Sem homologação, não existe obrigação de fornecer atualização de segurança. O aparelho nasce desatualizado e assim permanece.
  • O dispositivo pode ser usado para captura de senha bancária e interceptação do tráfego do Wi-Fi da casa.

Esse último ponto merece um instante de atenção. Um aparelho comprometido dentro da sua rede doméstica não está só "participando de ataques lá fora" — ele está dentro do seu perímetro, na mesma rede do notebook do trabalho e do celular onde você acessa o banco. É o cenário que o modelo de Zero Trust descreve como "assumir a violação", só que na sala de estar.

Desde 2023 a Anatel bloqueia administrativamente os servidores de autenticação usados por esses aparelhos, e em maio de 2026 lançou um painel público com os dados de URLs e IPs bloqueados. É ação real — mas ataca a distribuição de conteúdo, não a infecção. Os 1,8 milhão de aparelhos continuam ligados.

Quem paga a conta?

Essa é a parte em que eu tenho opinião, e ela é impopular com todos os lados.

O usuário não é o culpado. É fácil dizer "não compre TV box pirata", e é uma recomendação correta. Mas a pessoa que compra uma caixinha de R$ 150 não tem como avaliar firmware, e nada na embalagem informa que o aparelho vai participar de crimes. Culpar o consumidor por não auditar o que comprou é transferir uma responsabilidade técnica para quem não tem meio de exercê-la.

O fabricante não paga nada. Vende um aparelho sem obrigação de atualizar, sem canal de correção e frequentemente sem existir juridicamente no país. O custo do descuido dele é integralmente externalizado: quem paga é a vítima do DDoS, o provedor que carrega o tráfego e o dono do aparelho que teve o IP listado.

O provedor é o único que sente e não decide nada. Os ataques da Aisuru foram particularmente destrutivos para provedores de internet, que carregam tráfego que não geraram, atendem o cliente que não sabe do problema e não têm autoridade nenhuma sobre o que entra na casa dele.

O paralelo mais honesto é o de segurança veicular. Ninguém espera que o motorista audite o freio: existe homologação, recall obrigatório e responsabilidade do fabricante. Em dispositivo conectado, nada disso existe — e é por isso que o mercado produz, sem má-fé, uma arma de 31,4 Tbps.

É exatamente aí que a discussão encosta no Marco Legal da Cibersegurança: o debate brasileiro está concentrado em obrigar quem opera infraestrutura crítica, e quase nada se discute sobre obrigar quem fabrica e importa dispositivo conectado. A União Europeia foi para o outro lado com o Cyber Resilience Act, que impõe requisitos de segurança ao produto e obrigação de atualização durante a vida útil. Dá para copiar.

O que fazer, na prática

Separando por quem você é na história.

Se você tem aparelhos conectados em casa

  • Tire da tomada o que não é essencial. O aparelho que você não usa há seis meses não precisa de acesso à internet.
  • Desconfie do que nunca atualiza. Se não houve uma atualização em anos, ou o fabricante desistiu, ou nunca houve plano.
  • Troque a senha padrão de roteador, câmera e gravador de imagem. Continua sendo o vetor mais barato que existe.
  • Prefira aparelho homologado. Homologação não garante segurança, mas cria um responsável identificável — e é essa a diferença.

Se você opera uma rede corporativa

  • Inventarie tudo que se conecta. Câmera, impressora, controlador de acesso, TV da sala de reunião, sensor de ar-condicionado. Quase toda empresa tem mais dispositivo conectado do que imagina, e nenhum deles aparece no controle de ativos.
  • Isole numa VLAN sem internet. A câmera precisa falar com o gravador, não com o mundo. Se você ainda não segmenta a rede, o post sobre VLAN explica o mecanismo.
  • Bloqueie saída por padrão. Regra de firewall que permite tudo para fora é o que transforma um dispositivo infectado em membro ativo da botnet.
  • Monitore tráfego de saída anômalo. É o sinal mais confiável de dispositivo recrutado, e um SIEM básico já detecta.

Se você é alvo em potencial

Nada aqui é novo, e está detalhado no post sobre ataques DDoS: não exponha o IP de origem, coloque o serviço atrás de uma rede anycast, cacheie o que der e proteja o DNS. Contra 31,4 Tbps, nenhuma infraestrutura própria resolve — a única defesa é que o ataque bata em quem tem capacidade de sobra.

O ponto que fica

O recorde de 31,4 Tbps é uma manchete. O fato relevante é mais desconfortável: essa capacidade foi montada com aparelhos que funcionam perfeitamente, comprados de boa-fé, ligados em casas comuns — inclusive, estatisticamente, em 1,8 milhão de casas brasileiras.

Enquanto vender dispositivo conectado não implicar obrigação de mantê-lo seguro, a próxima botnet será maior. Não porque os criminosos ficaram mais espertos, mas porque a oferta de matéria-prima cresce todo Natal.

Se você tem uma caixinha dessas ligada agora atrás da TV, esse é o momento de decidir se ela vale o que ela custa.