Como fazer um termo de referência para comprar tecnologia?
Como montar um termo de referência para comprar tecnologia: os elementos obrigatórios, como especificar hardware e software sem direcionar marca e como definir critérios de aceitação e SLA.

O termo de referência (TR) é o documento que descreve o objeto de uma contratação: o que vai ser comprado, com quais especificações, em que quantidade, sob quais prazos e com quais critérios de aceitação. É sobre ele que os fornecedores cotam e a organização julga as propostas. Em compras de tecnologia, é o TR que separa uma aquisição que resolve o problema de uma que gera dor de cabeça por anos. A tese em uma frase: um bom TR não descreve a marca que você quer comprar, e sim o problema que precisa resolver — com detalhe suficiente para qualquer fornecedor sério propor a solução certa e para você comparar propostas por mérito, não só por preço.
Neste guia você vai ver o que precisa entrar num TR de tecnologia, como especificar hardware, software e serviços sem direcionar a compra para uma marca e como definir critérios de aceitação e SLA. O processo segue um percurso previsível:
O que é um termo de referência
O termo de referência é a peça que traduz uma necessidade em requisitos objetivos. Ele responde, de forma que qualquer fornecedor entenda igual, três perguntas: o que a organização precisa, com quais características e como saber se o que foi entregue está correto. Sem esse documento, cada proposta responde a uma pergunta diferente e a comparação vira loteria.
No setor público, o TR é obrigatório e regulado. A Lei nº 14.133/2021, a Nova Lei de Licitações que substituiu a antiga Lei 8.666/93, define o termo de referência e lista os elementos mínimos que ele deve conter para a aquisição de bens e serviços. No setor privado ninguém é obrigado a nada, mas a lógica é a mesma: um TR bem escrito é o que impede a empresa de comprar por impulso e descobrir tarde demais que a solução não integra, não escala ou não tem suporte.
Por que o termo de referência importa na compra de tecnologia
Tecnologia é onde o preço engana mais. Dois servidores podem custar quase o mesmo e ter garantias, prazos de reposição de peça e níveis de suporte completamente diferentes — e é aí que mora o custo real ao longo da vida do equipamento. Comprar pelo menor valor sem especificar o resto é como escolher um contrato só pela primeira parcela.
Um TR detalhado ataca esse problema por antecipação: obriga quem compra a pensar em compatibilidade, segurança, atualização e suporte antes de assinar. Quanto mais crítica a compra — modernizar uma infraestrutura, trocar um sistema de gestão, contratar um serviço com SLA —, mais o documento paga o tempo investido nele. Em compras de maior porte, esse cuidado costuma andar junto de uma due diligence do fornecedor.
O que precisa constar em um termo de referência
Um TR não precisa ser longo, mas precisa ser completo. Estas são as seções que raramente podem faltar:
| Seção do TR | O que descrever |
|---|---|
| Objeto | O que está sendo contratado, em uma frase clara e objetiva. |
| Justificativa | Por que a compra é necessária e qual problema ela resolve. |
| Especificação técnica | Requisitos funcionais e não funcionais, quantidades, compatibilidade e padrões. |
| Critérios de aceitação | Como se comprova que o entregue atende (testes, homologação, métricas). |
| Prazos e entrega | Cronograma, marcos e condições de recebimento. |
| Garantia e suporte | Tempo de garantia, SLA de atendimento e níveis de serviço. |
| Obrigações das partes | O que cabe ao fornecedor e o que cabe à contratante. |
| Orçamento estimado | Valor de referência, obtido por pesquisa de preços de mercado. |
| Critérios de julgamento | Como as propostas serão comparadas — preço, técnica ou os dois. |
A seção que mais consome trabalho é a especificação técnica, e é ela que decide se a compra dá certo.
Especificação técnica: requisitos funcionais e não funcionais
Separar os dois tipos de requisito evita a maior parte dos mal-entendidos. Requisitos funcionais dizem o que a solução precisa fazer: emitir uma nota, integrar com o ERP, autenticar por múltiplos fatores. Requisitos não funcionais dizem como ela precisa se comportar: desempenho, disponibilidade, segurança, escalabilidade e compatibilidade. Um software pode cumprir todas as funções e ainda ser inviável se derruba o desempenho ou não fala com os sistemas que você já tem.
Aqui entra a regra que mais protege a compra: descreva por necessidade, não por marca. Em vez de "roteador da marca X, modelo Y", especifique a velocidade de transmissão, o número de portas, os protocolos suportados e a compatibilidade. Isso preserva a concorrência e, no serviço público, atende ao princípio da impessoalidade. Quando um modelo específico for inevitável como referência, some sempre "ou equivalente" para não fechar a porta a alternativas melhores.
O que especificar por tipo de compra
Cada categoria de tecnologia tem seus pontos de atenção. A tabela resume onde concentrar a especificação em cada caso:
| Tipo de compra | Especifique sobretudo |
|---|---|
| Servidores e computadores | Processamento, memória, armazenamento, eficiência energética, garantia e reposição de peças. |
| Rede (switches, roteadores) | Portas, velocidade, protocolos suportados, compatibilidade e suporte técnico. |
| Software e licenças | Requisitos funcionais, integração com os sistemas atuais, segurança e atualizações. |
| Software sob medida | Requisitos funcionais e não funcionais, prazos por fase e critérios de aceitação por entrega. |
| Serviços e suporte | Escopo, SLA (tempo de resposta e de solução), disponibilidade e qualificação da equipe. |
| Backup e continuidade | Frequência, tempo de recuperação, criptografia e conformidade com a proteção de dados. |
Em compras urgentes — a troca imediata de um equipamento crítico, por exemplo — o TR encolhe para os requisitos mínimos e um prazo curto, mas não deixa de existir: mesmo às pressas, você precisa dizer com clareza o que aceita receber.
Critérios de julgamento e de aceitação
São duas coisas diferentes e as duas contam. Os critérios de julgamento definem como as propostas competem entre si: só preço, só técnica, ou uma combinação com peso para cada fator (experiência do fornecedor, qualidade do suporte, prazo, aderência às especificações). Os critérios de aceitação definem quando você dá a entrega por concluída: quais testes, qual homologação, quais métricas de desempenho o produto ou serviço precisa passar antes do pagamento.
Deixar os dois explícitos torna o processo transparente e defensável — e, na prática, é o que impede o fornecedor de entregar "quase o que foi pedido" e ainda cobrar o combinado.
Como eu monto isso na prática
Quando participo da compra de infraestrutura ou software, o erro que mais vejo é o TR virar uma lista de marca e modelo: alguém já decidiu o produto e escreve o documento de trás para frente. Isso mata a concorrência e, pior, esconde a pergunta que importa — qual requisito de fato precisa ser atendido? Prefiro começar pelos requisitos de desempenho e pelas restrições reais (compatibilidade com o que já roda, limite de energia do rack, integração com o sistema atual) e só então ver quais produtos as atendem.
O segundo ponto onde as compras de tecnologia desandam é o que vem depois da entrega: garantia, suporte e SLA. É fácil especificar um servidor com precisão e esquecer de dizer em quanto tempo o fornecedor precisa responder a um chamado crítico, quem arca com a troca de peça e o que acontece se o prazo estourar. Trato o SLA e os critérios de aceitação como parte central do TR, não como anexo — é ali que a compra barata se paga ou vira prejuízo. Vale conectar essa disciplina à gestão de TI da empresa e aos modelos normativos de TI, e a olhar o processo de compra de tecnologia como um todo.
Conclusão
Fazer um termo de referência para comprar tecnologia é, no fundo, o exercício de escrever com clareza o que você precisa antes de deixar o mercado responder. Um bom TR define o objeto, especifica os requisitos por desempenho (e não por marca), estabelece prazos, garantia e SLA e deixa explícito como as propostas serão julgadas e como a entrega será aceita. Esse cuidado protege tanto o comprador quanto o processo — e, no caso da tecnologia, é o que garante uma compra que continua fazendo sentido depois que a nota fiscal já foi paga.
Perguntas frequentes sobre termo de referência
O que é um termo de referência para compra de tecnologia?
É um documento técnico que descreve em detalhe os requisitos, especificações, condições e critérios para adquirir um produto ou serviço de tecnologia. Ele é obrigatório em licitações públicas, pela Lei nº 14.133/2021, e recomendado em compras corporativas por reduzir o risco de comprar a solução errada.
Quais informações devem constar em um termo de referência de TI?
O TR deve trazer: objeto da contratação, justificativa, especificação técnica detalhada, critérios de aceitação, prazo de entrega ou execução, condições de garantia e suporte (incluindo SLA), critérios de julgamento das propostas e o orçamento estimado obtido por pesquisa de preços.
Quem deve elaborar o termo de referência para tecnologia?
O ideal é a área técnica de TI escrever as especificações em conjunto com a área de compras, que cuida das regras do processo. Em projetos complexos, vale envolver um especialista para garantir que os requisitos estejam completos e não deixem brechas.
Qual a diferença entre termo de referência e projeto básico?
O projeto básico é usado em obras e serviços de engenharia, com detalhamento técnico de projeto. O termo de referência é usado para a aquisição de bens e serviços em geral, incluindo tecnologia, com foco nas especificações funcionais e técnicas necessárias.
Como evitar direcionamento em um termo de referência de tecnologia?
Descreva os requisitos por função e desempenho, não por marca. Quando for mesmo necessário citar um modelo como referência, acrescente a expressão "ou equivalente", para manter a concorrência justa entre fornecedores e respeitar o princípio da impessoalidade.


