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O que é criptografia? Simétrica, assimétrica e hash

Criptografia explicada sem matemática: os três tipos, o que cada um resolve, onde eles aparecem no seu dia e por que hash não é criptografia.

Gabriel Pedroso7 min de leitura
criptografia simétrica assimétrica e hash

Criptografia costuma ser explicada de duas formas ruins: com matemática que ninguém acompanha, ou com metáforas de cofre que não sustentam nenhuma decisão prática.

Este texto tenta a terceira via. Sem fórmula, mas com o suficiente para você entender por que o cadeado do navegador não prova honestidade, por que senha não deveria ser guardada de forma reversível, e por que hash — apesar de aparecer em toda conversa sobre segurança — tecnicamente não é criptografia.

A tese em uma frase: criptografia não resolve confiança, resolve confidencialidade — e quase todo erro grave nessa área vem de tratar uma coisa como se fosse a outra.

SimétricaUma chave sóa mesma chave cifra e decifra — AES
  • Reversível com a chave
  • Rápida em grande volume
  • Resolve a entrega da chave
AssimétricaPar de chavespública cifra, privada decifra — RSA e ECC
  • Reversível com a privada
  • Rápida em grande volume
  • Resolve a entrega da chave
HashMão únicanão é criptografia — SHA-256, bcrypt, Argon2
  • Reversível de qualquer forma
  • Rápida em grande volume
  • Não se aplica
As três famílias. Repare que nenhuma resolve tudo sozinha: o mundo real combina as três na mesma conexão, dezenas de vezes por segundo.

As três famílias

Simétrica: rápida, com um problema

A mesma chave cifra e decifra. É eficiente — cifra gigabytes sem esforço perceptível — e é o que faz o trabalho pesado em praticamente tudo: o disco do seu notebook, o conteúdo de uma conexão HTTPS, o arquivo compactado com senha. O algoritmo dominante é o AES.

O problema é a logística: como entregar a chave para a outra ponta sem que alguém a intercepte no caminho? Se você pudesse enviar a chave por um canal seguro, já teria um canal seguro e não precisaria da chave.

Assimétrica: lenta, e resolve exatamente esse problema

Aqui existem duas chaves matematicamente ligadas: uma pública, que você distribui livremente, e uma privada, que nunca sai do seu lado.

O que a pública cifra, só a privada decifra. Isso permite que qualquer pessoa envie algo secreto para você sem que vocês tenham combinado nada antes.

E funciona ao contrário também, o que é igualmente útil: o que a privada cifra, qualquer um verifica com a pública. Como só você tem a privada, isso prova a origem — é o princípio da assinatura digital. Os algoritmos são o RSA e, cada vez mais, os de curva elíptica (ECC), que entregam a mesma segurança com chaves menores.

O custo é desempenho: cifrar assimetricamente é ordens de magnitude mais lento.

Hash: nem é criptografia

Hash transforma qualquer entrada numa saída de tamanho fixo, sem volta. Não existe chave e não existe caminho reverso — o que faz dele, tecnicamente, outra coisa.

Ele serve para verificar, não para esconder:

  • Integridade. Dois arquivos com o mesmo hash são idênticos. Um bit diferente muda a saída inteira.
  • Senhas. O sistema guarda o hash, não a senha. Quando você digita, ele calcula o hash e compara. Assim ele consegue validar sem nunca conhecer a sua senha.

Uma distinção que importa em desenvolvimento: para senha não se usa hash rápido. SHA-256 é excelente para verificar arquivo e péssimo para senha, justamente por ser veloz — o que ajuda quem tenta adivinhar bilhões por segundo. Para senha usa-se hash deliberadamente lento e com sal: bcrypt, scrypt ou Argon2. Se um banco de dados vaza com senhas em SHA-256 puro, considere todas comprometidas.

Como isso aparece no seu dia

HTTPS. Ao abrir um site, o navegador verifica o certificado (assimétrica), combina uma chave de sessão com o servidor (assimétrica), e a partir daí toda a conversa usa essa chave (simétrica). As três famílias, em menos de um segundo, milhares de vezes por dia. É o mesmo mecanismo do post sobre SSL e HTTPS no WordPress.

Criptografia de disco. BitLocker e FileVault cifram o disco inteiro com chave simétrica. Sem isso, um notebook roubado entrega tudo a quem tirar o disco e plugar em outra máquina — a senha de login não protege nada nesse cenário.

Mensageria fim a fim. As chaves ficam nos dispositivos, e nem o servidor consegue ler. É por isso que um provedor honesto de mensageria não consegue entregar o conteúdo das suas mensagens mesmo se quiser.

Assinatura digital e certificado. A base do ICP-Brasil, das notas fiscais eletrônicas e da validação de atualizações de software.

Backup. Cópia cifrada é o que impede que o backup roubado vire vazamento. Vale lembrar do outro lado: se você perder a chave, perdeu o backup — o que reforça a disciplina do backup 3-2-1.

O que a criptografia não faz

Esta é a seção que mais evita erro caro.

Não prova honestidade. O cadeado significa que a conexão é privada e que o certificado é válido para aquele domínio. Só isso. Um site de golpe tem HTTPS perfeito — certificado é gratuito e automático há anos. Ensinar "procure o cadeado" como teste de confiabilidade é formar vítima para phishing.

Não protege dado em uso. Arquivo cifrado em repouso está aberto enquanto você o edita. Um infostealer na máquina lê o que está na tela, não o que está no disco.

Não substitui controle de acesso. Se todo mundo tem a chave, o dado está cifrado e acessível para todo mundo. Criptografia sem gestão de chave é teatro — e gestão de chave é a parte difícil, não o algoritmo.

Não sobrevive à chave mal guardada. A esmagadora maioria dos incidentes envolvendo criptografia não quebra algoritmo nenhum: encontra a chave no repositório de código, no arquivo de configuração ou no cofre com permissão aberta. É o mesmo padrão do post sobre cadeia de suprimentos de software.

Uma nota sobre o pós-quântico

O tema aparece com frequência e merece proporção honesta.

Computadores quânticos suficientemente grandes quebrariam RSA e ECC — não por força bruta, mas porque existe um algoritmo que resolve o problema matemático em que essas cifras se apoiam. Esses computadores ainda não existem em escala útil, e há debate legítimo sobre prazo.

O que já é concreto: o NIST padronizou os primeiros algoritmos pós-quânticos em 2024, num projeto público, e a migração começou pelas grandes plataformas.

O risco que existe hoje chama-se harvest now, decrypt later: tráfego cifrado interceptado e armazenado agora, para ser aberto quando a tecnologia permitir. Isso só importa se o seu dado precisa continuar secreto por décadas — segredo industrial, informação de defesa, prontuário médico. Para a maioria das empresas, ainda não é projeto; é assunto para acompanhar e cobrar dos fornecedores no momento certo.

O que fazer na prática

Cinco medidas, em ordem de retorno:

  1. Cifrar o disco de todos os notebooks. BitLocker ou FileVault, já incluídos, ligam em minutos. É a medida de melhor relação custo-benefício deste texto.
  2. HTTPS em tudo, com renovação automática. Certificado expirado derruba site e treina usuário a ignorar aviso de segurança.
  3. Backup cifrado, com a chave guardada em outro lugar. E teste a restauração — inclusive a etapa de decifrar.
  4. Hash lento para senha. bcrypt, scrypt ou Argon2. Se você desenvolve e ainda usa MD5 ou SHA sem sal, é a correção mais urgente do seu código.
  5. Tratar chave como segredo de vida curta. Nada de chave permanente em repositório ou arquivo de configuração. Segredo efêmero, emitido sob demanda, transforma um roubo bem-sucedido num roubo inútil.

O ponto que fica

Criptografia é uma das poucas áreas de segurança em que a tecnologia está muito à frente do uso. Os algoritmos são sólidos, gratuitos e já estão instalados no sistema operacional que você usa.

O que falha quase sempre é o entorno: chave mal guardada, hash rápido em senha, disco não cifrado, cadeado confundido com honestidade.

Se você tirar uma frase só deste texto, que seja esta: criptografia responde "alguém no meio do caminho consegue ler isto?". Ela nunca respondeu "posso confiar em quem está do outro lado?".